Entrevista

GUIOMAR NAMO DE MELLO
Cristiane Marangon
A educação é um terreno propício para que se perpetuem
muitas convicções equivocadas. A fim de combater esse mal, é preciso desenvolver
pesquisas e divulgar os resultados. "Destruir mitos é sempre uma tarefa
antipática", afirma Guiomar Namo de Mello, que atualmente presta serviços de
consultoria para a educação pública e privada pela Escola Brasileira de
Professores (Ebrap), em São Paulo. "Ao longo do debate, as mentiras caem por
terra e sobram as verdades que, de fato, são importantes para a educação
avançar". Guiomar fez carreira como pesquisadora de educação na Fundação Carlos
Chagas e docente na PUC-SP. Também foi secretária de educação da capital
paulista (1982-1985), deputada estadual, especialista em educação no Banco
Mundial (BIRD) e no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em
Washington, membro do Conselho Nacional de Educação (CNE) e diretoraexecutiva da
Fundação Victor Civita. Durante sua gestão como secretária municipal de São
Paulo, foi pioneira em implementar inovações na organização curricular, na
carreira do magistério e na democratização da gestão escolar. Iniciativas
inovadoras como essas, empreendidas no começo dos anos 1980, contribuíram para a
reforma educacional iniciada nos anos 1990. Ao longo de sua jornada, deparou-se
com mitos e verdades na educação. Nesta entrevista, ela fala sobre tais aspectos
no cenário educacional brasileiro.
Quais são os mitos mais fortes na educação? O número de alunos por sala de aula é um deles. Imagina-se que a quantidade reduzida de estudantes teria efeito positivo no desempenho do conjunto, mas é preciso qualificar o que se quer dizer com isso. Atualmente, sabe-se que turmas com menos de 10 alunos são relativamente improdutivas, porque nem sempre há interação ou uma dinâmica suficientemente estimulante. Por outro lado, é evidente que uma sala de aula com 200, 100 ou 80 estudantes no ensino fundamental é inaceitável. A diferença entre 40 e 35 alunos, que pode parecer pequena, surte pouco efeito na aprendizagem, mas tem grande efeito do ponto de vista de impacto orçamentário, já que o fator mais caro na produção da educação é o recurso humano, que são os trabalhadores. Nessa área, a atividade de mão de obra é direta, com pouca substituição por automação. Quando se pensa em escala maior, por exemplo, em 10 mil salas de aula, aumentar cinco alunos por classe não fará diferença significativa na aprendizagem, mas terá forte impacto no número de professores necessários a contratar. Essas questões, que são ditas como verdades, sem qualificar, transformam-se em regras que valem para todas as situações, qualquer que seja o fator discutido.
E quanto ao salário dos professores?
Acredita-se que a baixa qualidade da educação tem a ver com essa questão, pois os professores não são bem-remunerados. Esse é outro mito. Uma questão é que o professor tem de ganhar mais porque sua profissão tem de ser valorizada socialmente, e uma das maneiras de reverter esse quadro é melhorar a remuneração. Esse é um ponto. No entanto, estudos demonstram que não é possível perceber relação direta entre salário e desempenho. Junto com o melhor salário, deve vir assistência técnica, formação em serviço, apoio, disponibilidade de recursos para trabalho em sala de aula, jornada de trabalho e formação anterior. O que compõe o desempenho do professor com seus alunos é um conjunto complexo de variáveis. O salário é apenas uma delas. Se mexermos exclusivamente nessa questão, não resultará em melhorias.
Qual é a influência dos planos de carreira nesse cenário?
Já se sabe que o salário inicial e o ritmo pelo qual o professor avança na carreira são mais importantes do que o salário tomado no absoluto. Só assim será possível atrair gente com formação mais qualificada. Nesse sentido, nossas carreiras oferecem o inverso. O salário inicial costuma ser baixo. O profissional tende a ganhar mais por volta da segunda metade ou mais no fim da carreira, ou seja, exatamente o oposto do que deveria acontecer. É fundamental ter uma progressão que faça com que em um período de 12 a 15 anos, no máximo, ele tenha melhoria salarial significativa e que depois continue com melhorias, só que em menor ritmo. Essa simples medida faria com que o profissional se aposentasse com mais dinheiro do que ele se aposenta hoje ou, ao menos, com a mesma quantia, só que a distribuição seria diferente.
A autonomia do professor tem impacto real na aprendizagem?
Esse é outro tipo de mito da educação. Mesmo no melhor dos mundos e tendo formação inicial de qualidade, não podemos esquecer que o professor é um prático, assim como um médico-cirurgião, um dentista e um enfermeiro. Esses profissionais não estão voltados para a produção de conhecimento original em suas áreas. O engenheiro civil, por exemplo, utiliza o conhecimento produzido na física e então o aplica em situações complexas. Ele não é chamado para inventar um novo material. Essa tarefa cabe às pessoas que estão nos laboratórios e nas universidades, pesquisando materiais com um novo tipo de resistência. Com o professor acontece o mesmo. Ele é o prático da educação, e não alguém que cria uma teoria de aprendizagem a cada dia que entra em sala. O que precisa é aprender a dominar as técnicas que são dadas a ele. Com a formação que o docente dispõe hoje, não há como ser criativo; para isso, é necessário ter referencial sólido. Quando se observa o ensaio de uma bailarina, por exemplo, percebe-se que tudo o que ela apresenta no palco - cada gesto, cada movimento, cada postura - é preestabelecido. Com tanto ensaio e talento, quando assistem ao espetáculo, as pessoas pensam que tudo está sendo produzido espontaneamente. Por que, então, exigir que o professor, sem treino nenhum, enfrente situações tão complexas, como é o caso de uma sala de aula, onde estão presentes pessoas muito diferentes, com necessidades diversas, que vêm de universos culturais díspares? A tarefa não é simples e tem de ser orientada em termos práticos. A criatividade vai acontecer no momento em que ele já tiver passado por muitas situações.
É mito ou verdade que a carreira de professor atrai pessoas pouco qualificadas?
Não é um mito, e sim uma verdade. Aliado a isso, há o fato de que se trata de uma profissão tradicionalmente feminina. Tudo isso colabora para construir a imagem de uma carreira que não ganha muito, que desprofissionaliza o professor. Essa imagem terá de mudar, porém vai demorar muito. Para que ele seja profissionalizado, é fundamental que tenha sobre si uma imagem positiva. Não é o que ocorre. O afeto contribui para isso, pois não há dúvida de que o magistério tem um sério componente afetivo, tal como a enfermagem. Entre isso e reduzir o magistério à pedagogia do afeto, é muita mistificação!
Mais tempo de estudo na escola significa melhor formação? Ou isso também é mito?
Acredita-se que, quanto mais tempo a criança ficar na escola, melhor será. Essa é uma questão que precisa ser esclarecida. A jornada escolar no Brasil é curta, tendo em média quatro horas diárias, o que, na verdade, vem a ser três horas e meia de trabalho efetivo. Ampliar essa jornada em uma ou duas horas, para todos os alunos, seria muito mais eficiente do que aumentar um ano de escolaridade ou do que aumentar 20 dias de ano letivo. Já existem pesquisas demonstrando que o tempo diário escolar é um fator importante. Contudo, a escola de tempo integral tornou-se outro mito entre nós, pois o tempo integral é preenchido com atividades desvinculadas do currículo e das metas de aprendizagem. Quando se pensa em uma jornada escolar maior, de cinco ou seis horas, é para fazer melhor aquilo que mal se logra fazer em quatro. Com isso se reconhece que a jornada escolar oferecida é curta e que é necessário mais tempo diário para completar os estudos. A escola integral, como é proposta no Brasil, com conteúdos desarticulados do currículo regular, é um absurdo! Em um país de jornada encurtada, todas as crianças têm o direito de ficar mais tempo na escola para aprender melhor aquilo que não estamos conseguindo ensinar em quatro horas. O conceito de escola integral está equivocado e tem construído um mito entre a população.
Como os mitos são construídos?
Os professores brasileiros, por não terem boa formação, sentem-se marginalizados e desvalorizados. Com isso, fica fértil o terreno para a construção de mitos, o que é preocupante. Observa-se uma mistura de autoestima muito baixa, de desvalorização real por parte da sociedade (que se revela pelo salário que se paga e pela leviandade com que se discutem os temas do magistério em particular), de políticas públicas equivocadas, de uma maneira de conduzir apressadamente as questões da educação e de uma grande desqualificação intelectual e cultural.
Como se poderia mudar tal situação?
Eu defendo, desde a minha tese de doutorado, dar ao professor recursos para que ele seja bem-sucedido hoje, e não só daqui a 20 anos. Como ele pode ajudar o menino que sofre bullying ou a criança que tem algum tipo de dificuldade de aprendizagem? Que recursos ele tem? Com quem ele conta para não se sentir sozinho e saber que alguém se importa com a situação que está vivendo? Oferecer recursos é importante para combater esse mal. Desde materiais estruturados até apoio de outros profissionais, como psicólogos, que podem pensar em soluções junto com ele. Enfim, fortalecer e aparelhar melhor a escola para que o professor não se sinta tão desamparado, como é de costume. Obviamente, é essencial haver uma política pública de carreira, com assistência ao professor, com oportunidades, jornada de trabalho que permita a leitura, ajuda para ele consumir mais cultura e para estar presente nos eventos que marcam as tendências da vida.
Os mitos prejudicam a educação?
Sim, na medida em que enrijecem a compreensão que se tem sobre o todo da educação. Isso acontece, talvez, por falta de formação. Por exemplo, existem grupos que fazem uma forte crítica à abordagem por competências. O que se ouve é que competência é algo neoliberal. Analisando Philippe Perrenoud e alguns psicólogos da linha cognitivista, o que se observa é que a competência como construção interna do sujeito é afetada pelo estímulo de aprendizagem que ele tem em seu meio ambiente. Isso vem de Jean Piaget, e não das correntes funcionalistas que pregam que o estimulo vem de fora, independentemente da situação pela qual o indivíduo esteja passando. Essa linha sim é a mais identificada com o neoliberalismo.
Por que ocorre tal distorção?
As pessoas reproduzem o que escutaram alguém dizer e, assim, qualquer expressão que contenha a palavra "competência" é vetada e elas se fecham para o diálogo. Isso é uma lástima, porque muitas delas são teorias ricas e podem ser boas orientadoras de práticas; porém, quando são assimiladas sem nenhuma referência própria, cristalizam-se em noções que são contra elas mesmas. Pode-se chamar competência de expectativa de aprendizagem, que é uma expressão que descreve esse quadro de maneira mais pobre, embora no fundo tenha o mesmo significado, ou seja, trata-se da constituição de conhecimentos e atitudes que se processa internamente no sujeito.
Como acabar com um mito?
Não há nada melhor para desmistificar os mitos do que mostrar a vida como ela é e os fatos sobre a realidade. Quando se diz, por exemplo, que as escolas particulares do Brasil têm pior desempenho no Pisa do que as escolas públicas da Finlândia, estamos colocando uma pedra em cima de um mito. No Brasil, acredita-se que tenhamos algumas escolas de elite de excelência, mas elas são boas dentro do Brasil. Há situação melhor para atacar um mito do que essa? Quando se mostra o ENEM e percebe-se que as escolas particulares com um trabalho mais tradicional vão melhor na avaliação, também se coloca um pouco de areia em alguns mitos. As pesquisas são boas maneiras de desconstruir mitos e não consomem tanto dinheiro. Porém, é necessário haver pessoas com boa formação para essa empreitada. O problema é que, na educação, há um grupo muito reduzido de gente qualificada para isso.
Existem tantos mitos em outras áreas como existe na educação? Outras profissões sofrem igualmente com isso?
As profissões da área das ciências humanas - em que não existem verdades, pois a subjetividade humana está sempre presente - são mais sujeitas do que outras. Algumas profissões na área de cuidados pessoais também são mais vulneráveis, como a assistência social e a enfermagem. Existem ainda profissionais que se alimentam de mitos, como a cartomante e o curandeiro, que não precisam de comprovação científica. A medicina é uma profissão com alguns mitos, como, por exemplo, o de que o médico é infalível. A verdade é que ele é falível como qualquer ser humano. Contudo, o magistério enfrenta mais esse tipo de problema porque a educação é uma área de prática social muito mais do que qualquer outra profissão. Por esse motivo, é fértil para alimentar algumas crenças.
Houve algum mito que era muito forte no começo de sua carreira e a respeito do qual as pessoas não falam muito hoje?
Na época em que eu estava me formando, houve um forte acento behaviorista. Hoje vemos que algumas das conclusões que eram decorrentes daquela abordagem permanecem, enquanto outras foram desmentidas pela prática. É assim que se desconstroem os mitos. Eles não são dizimados, mas vão sendo polidos, e resta um pouco aquilo que, no confronto com a realidade, funciona. É uma transformação, em geral, para o bem. Na minha juventude, vivi em um mundo totalmente dividido. Sinto que estamos reproduzindo isso internamente no Brasil. De um lado, estava o capitalismo, que, para alguns, era o bem e, para outros, o mal. De outro lado, estava o socialismo, que, para alguns, era o mal e, para outros, o bem. Hoje, grande parte do que estava posto pelo programa do socialismo no mundo, como a justiça social, o uso correto dos recursos naturais, etc., também se coloca para as sociedades atuais, sejam elas mais socialistas ou mais capitalistas. A tendência é que o teste da realidade mostre aquilo que funciona e o que não funciona.

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