Educação na era digital
Wim Veen e Bem Wrakking
Os usos das tecnologias influenciaram o modo de pensar e o comportamento do Homo zappiens. Isso tem importantes repercussões na maneira de aprender e de se relacionar.
Muitos professores vivenciam o fato de que os alunos de hoje demandam novas abordagens e métodos de ensino para que se consiga manter a atenção e a motivação na escola. Ouvimos muitos deles dizerem que os alunos dedicam atenção às atividades por um período curto de tempo, que não conseguem ouvir alguém falar por mais de cinco minutos. Os professores afirmam que as crianças não conseguem concentrar-se em uma tarefa só, fazendo várias atividades paralelamente, e que esperam obter respostas instantaneamente quando fazem uma pergunta.
Não são apenas os professores que se preocupam com as crianças que crescem em um mundo digital. Os pais também estão preocupados, pois observam que elas passam o tempo em casa entre o computador e a televisão. Eles pedem que seus filhos saiam e brinquem na rua, encontrem seus amigos e pratiquem esportes. Pensam que o uso da tecnologia traz limitações físicas e um empobrecimento do convívio social. Além disso, observam que os livros não parecem mais ser do interesse de seus filhos, que preferem jogos de computador, inclusive aqueles violentos, em que parece não haver limites para os padrões morais.
Todas essas preocupações devem ser abordadas quando consideramos as consequências das mudanças socioeconômicas decorrentes da presença da tecnologia digital em nossa sociedade. O comportamento social nunca se desenvolve no vácuo, e boa parte de nosso comportamento é influenciada pelo contexto social no qual crescemos. O que as crianças fazem e o que pensam é o resultado da interação com o que está ao seu redor, o mundo externo.
Uma das mudanças mais impressionantes é a da globalização. A globalização econômica está levando a novas formas de desenvolvimento de mercados de trabalho, forçando nossas economias a se adaptarem a novos negócios e iniciativas. De um ponto de vista social, contudo, a globalização implica que os seres humanos estejam mais conectados, que estejam ligados em rede. As crianças comunicam-se com o mundo inteiro, pois a internet não tem limites ou fronteiras. Se elas jogam no computador, podem comunicar-se com qualquer pessoa que esteja, como elas, disposta a resolver um problema ou responder a determinada questão.
A geração que nasceu do final da década de 1980 em diante tem muitos apelidos, tais como "geração da rede", "geração digital", "geração instantânea" e "geração ciber". Todas essas denominações referem-se a características específicas de seu ambiente ou comportamento. Muitas gerações têm apelidos, então por que esta deveria ser diferente? A resposta é que a geração da rede difere de qualquer outra do passado porque cresceu em uma era digital. Chamamos essa geração de Homo zappiens, aparentemente uma nova espécie que atua em uma cultura cibernética global com base na multimídia.
Sendo os primeiros seres digitais, eles cresceram em um mundo onde a informação e a comunicação estão disponíveis a quase todas as pessoas e podem ser usadas ativamente. As crianças hoje passam horas de seu dia assistindo à televisão, jogando no computador e conversando nas salas de bate-papo. Ao fazê-lo, processam quantidades enormes de informação por meio de uma grande variedade de tecnologias e meios. Elas se comunicam com amigos e outras pessoas de forma muito mais intensa do que as gerações anteriores, usando a televisão, o MSN, os telefones celulares, os iPods, os blogs, os Wikis, as salas de bate-papo na internet, os jogos e outras plataformas de comunicação, utilizando tais recursos e plataformas em redes técnicas globais, tendo o mundo como quadro de referência.
Três aparelhos tiveram grande importância: o controle remoto da televisão, o mouse do computador e o telefone celular. Com o controle remoto da televisão, as crianças cresceram habituadas a escolher assistir a uma variedade de canais nacionais e estrangeiros. O número de canais de televisão disponíveis está sempre crescendo; via cabo e satélite, elas podem escolher qualquer um dos 2.200 canais ou 1.500 estações de rádio do mundo inteiro que estão disponíveis. Ao assistir à televisão, aprenderam a interpretar as imagens antes mesmo de aprender a ler e a interagir, ainda que de maneira bastante restrita, com um meio de comunicação de massa.
O número de horas destinado a jogar no computador está aumentando e, em pesquisas recentes, o computador parece estar chegando ao topo da lista. Usando o mouse, os alunos navegam pela internet e clicam até encontrar o que querem, buscando ícones, sons e movimentos mais do que propriamente letras. O telefone celular ajudou-os a se comunicarem com os pais ou com os amigos com maior facilidade, já que a distância física não representa qualquer restrição à comunicação.
O uso dessas tecnologias influenciou o modo de pensar e o comportamento do Homo zappiens. Para ele, a maior parte da informação que procura está apenas a um clique de distância, assim como está qualquer pessoa que queira contatar. Ele tem uma visão positiva sobre as possibilidades de obter a informação certa no momento certo a respeito de qualquer pessoa ou de qualquer lugar. O Homo zappiens aprende muito cedo que há várias fontes de informação, as quais podem defender verdades diferentes. Ele filtra as informações e aprende a tecer seus conceitos em redes de amigos/parceiros com os quais se comunica com frequência. A escola não parece ter grande influência em suas atitudes e valores.
Como essa geração age e como ela desenvolve o seu comportamento? Vejamos três situações típicas encontradas pela maior parte dos pais. A primeira é a de um dia escolar comum em que os alunos reúnem-se ao redor dos portões da escola esperando pelo ônibus ou pegando suas bicicletas para ir para casa. Em casa, eles ligam seu computador e começam uma conversa no MSN com os mesmos colegas com que acabaram de falar na escola. Jogam on-line com eles, enquanto começam outra conversa com outros amigos que aceitaram na lista de contatos do MSN. Sua lista de contatos contém 150 nomes, já que este é o limite do MSN.
A segunda situação que muitos pais enfrentarão é a de comprar um jogo de computador para seu filho. Quando chega em casa, a criança quer logo começar a jogar e coloca o CD no computador. Você começa a ler o manual de instruções, enquanto a criança começa a jogar. Quando o pai está na página 11, a criança provavelmente já está no meio do jogo. E, quando ela não consegue ir adiante, simplesmente liga para um amigo e pede ajuda, entra em um site sobre o jogo ou pergunta a alguém na escola. Ela sequer cogita ler as instruções.
A diferença entre o Homo zappiens e você é que você funciona linearmente, lendo primeiro as instruções - usando o papel - e depois começando a jogar, descobrindo as coisas por conta própria quando há problemas. O Homo zappiens não usa a linearidade: ele primeiro começa a jogar e depois, caso encontre problemas, liga para um amigo, busca informação na internet ou envia uma mensagem para um fórum. Em vez de trabalhar sozinho, são utilizadas redes humanas e técnicas quando há necessidade de respostas instantâneas.
A terceira situação que a maior parte dos pais encontrará é a do Homo zappiens assistindo à televisão. Zapear canais é algo comum, já que as crianças assistem a seis ou mais canais ao mesmo tempo. Todas elas o fazem, e é raro uma criança assistir ao mesmo canal por mais de uma hora. Os canais de música, tais como a MTV, são populares entre elas, mas são vistos simultaneamente com outros canais.
A velha regra de fazer uma coisa de cada vez para fazer a coisa certa não se aplica a essa geração. Seus representantes dividem sua atenção entre os diferentes sinais de entrada e decidem processá-los quando adequado, variando seu nível de atenção de acordo com o seu interesse. Se na TV estiver passando um videoclipe de que gostem, as crianças "ligam-se" no que está passando; depois que o clipe acaba, a atenção destinada à televisão diminui.
Fazer a tarefa escolar é uma questão de última hora. Enquanto você aprendeu a fazer sua tarefa de maneira planejada, o Homo zappiens começa a trabalhar no último momento possível. A escola é apenas uma parte de sua vida: não é a principal atividade. As crianças sabem que têm de ir à escola e fazer testes, mas a escola parece mais um lugar de encontro de amigos, um espaço social, do que um lugar para aprender. É um lugar onde você fala fisicamente com seus amigos, um lugar em que você entra em contato com eles, criando sua rede. As crianças fazem suas tarefas com o auxílio dessa rede e as finalizam bem na hora de entregá-las. Se você frequentou a faculdade, lembrará de um comportamento similar; contudo, na escola fundamental ou média, planejar como fazer suas tarefas e atividades semelhantes era como um hábito, algo mais comum entre os alunos.
O Homo zappiens vive em um mundo cujos recursos de informação são muito ricos. Ele adotou o computador e a tecnologia tal como as antigas gerações fizeram com a eletricidade: a informação e a tecnologia da informação tornaram-se parte integrante de sua vida. As gerações anteriores consideravam a tecnologia, como câmeras de vídeo e aparelhos eletrônicos, algo difícil de dominar. O Homo zappiens, porém, trata a tecnologia como um amigo e, quando um novo aparelho surge no mercado, pergunta por seu funcionamento e quer entender como tal aparelho poderia ajudá-lo em seu cotidiano. Para ele, o principal critério para adotar a tecnologia não é o fato de o software ou programa ter boa usabilidade, mas o fato de dar conta ou não de suas exigências e necessidades. Na verdade, ele nasceu com um mouse na mão, já sabia como manipular o controle remoto da televisão com 3 anos e já tinha seu próprio telefone celular aos 8 anos.
Todos os recursos mencionados têm algo crucial em comum: fornecem ao usuário o controle de uma ampla variedade de fluxos de informação e comunicação. Qualquer usuário pode, a qualquer momento, ativar, mudar ou interromper esses recursos a simplesmente apertando um botão. Eles colocam o usuário em uma posição de controle para decidir qual informação processar ou com qual comunicação envolver-se ou não. Tais recursos não só capacitam o usuário a controlar o fluxo de informação, como também o ajudam a lidar com a sobrecarga de informação e a selecionar a informação de modo eficiente, adequado e imediato conforme as suas necessidades.
A velocidade com que o Homo zappiens usa a internet para buscar informação é alta - e, para os pais, pode parecer apenas uma questão de puro acaso que os filhos encontrem o que querem. Apenas buscando informação juntamente com uma criança é que você perceberá o contrário. É uma questão de habilidade, e não de acaso. A capacidade de busca das crianças é muito maior do que a nossa, e é improvável que você consiga alcançar a mesma velocidade delas, mesmo tendo praticado por muito tempo.
Para concluir: as escolas e os pais tendem a ver as crianças a partir da perspectiva do que pensam que elas deveriam fazer de acordo com seus valores e normas. Não há nada errado nisso, pois todas as gerações agiram assim - chamamos isso de "criar nossos filhos". Contudo, já que a geração atual é a primeira que ensina seus pais a usar um fórum, um telefone celular e a consultar sua conta bancária eletronicamente, entre outros serviços, é esta a primeira vez que observamos ocorrer uma "educação invertida", fenômeno nunca visto antes.
Muitos pais e professores, apesar disso, estão convencidos de que jogar no computador, conversar em salas de bate-papo e zapear os canais de TV é uma perda de tempo. Em nossa opinião, usar a internet, jogar no computador e zapear na televisão faz com que as crianças realmente desenvolvam habilidades valiosas, que vão além das habilidades instrumentais, como a coordenação entre o olhar e as mãos. Por causa dessas grandes mudanças em nossa sociedade, os pais e professores deveriam observar as crianças naquilo que elas de fato fazem para entender que essa geração viverá em um mundo diferente, para o qual habilidades, atitudes e comportamentos novos serão compulsórios.
NOTA
Este artigo é uma adaptação do capítulo 2 do livro Homo zappiens: educando na era digital, de Wim Veen e Bem Wrakking (Artmed, 2009).
Wim Veen é diretor da área de Educação e Tecnologia da Universidade de Tecnologia de Delft (Holanda).
Bem Wrakking é pesquisador em engenharia de sistemas, análises de políticas e gerenciamento
na Universidade de Tecnologia de Delft (Holanda).

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