O cérebro diferente dos nativos digitais

Ramon M. Cosenza

Acostumados às novas tecnologias, os jovens tendem a considerar entediante o estudo, a leitura de um texto mais extenso e as aulas tradicionais. Então, é bom que também sejam treinados em habilidades que antigamente se desenvolviam de maneira mais natural.

No mundo de hoje, as novas gerações nascem e crescem envolvidas em uma parafernália de aparelhos eletrônicos de tecnologia digital, com os quais interagimos a todo o instante. São computadores fixos e portáteis, ligados ou não à internet, telefones celulares, televisores, iPods e outros aparelhos de música e vídeo. As pessoas hoje com cerca de 30 anos não conheceram um mundo sem tais dispositivos e, por isso mesmo, têm sido chamadas de nativos digitais. Os mais velhos, que tiveram de se adaptar a essa realidade ou estão procurando fazer frente a ela, são os imigrantes digitais.

A neurociência moderna, com suas técnicas de neuroimagem que permitem examinar o cérebro em funcionamento, tem mostrado que o sistema nervoso é muito mais plástico do que se imaginava e modifica-se constantemente pelas interações com o ambiente. Sabe-se, por exemplo, que o córtex cerebral, relacionado com a sensibilidade e a motricidade da mão esquerda dos violinistas, refaz as conexões dos seus neurônios à medida que ocorre o treinamento musical. Em outro exemplo, o treinamento da habilidade de malabarismo com bolas provoca a modificação dos circuitos nervosos de certas áreas do córtex cerebral em questão de semanas. O interessante é que essas modificações desaparecem em pouco tempo se, por acaso, cessar a atividade correspondente. Nosso cérebro não tem uma estrutura permanente, mas seus circuitos sofrem contínuas modificações induzidas pela interação com o ambiente ou, em última análise, pela aprendizagem.

Com base nisso, podemos afirmar com segurança que o cérebro dos nativos digitais, submetido desde cedo à interação com toda a tecnologia a que me referi, é diferente em muitos aspectos do cérebro dos imigrantes digitais. Há quem afirme que, além de uma diferença geracional - que de certo modo sempre existiu e tem sido alargada pelo rápido avanço do conhecimento, causando verdadeiras diferenças culturais entre as gerações -, existiria ainda uma significativa diferença cerebral a separar nativos e imigrantes digitais. Isso resultaria em capacidades cognitivas e comportamentos diferenciados.

Uma área em que podemos procurar por essas diferenças é a da chamada memória operacional. Ela é também conhecida como memória de trabalho e constitui a capacidade que temos de manter na consciência as informações necessárias para realizar uma tarefa em andamento. Através dela não só mantemos informações on-line, como também podemos mentalmente manipulá-las e modificá-las. Usamos a memória operacional quando lemos um parágrafo extenso, em que o conjunto da informação deve ser guardado até o final, quando extrairemos o sentido geral. Outro exemplo é o que acontece quando acessamos uma central de atendimento automático que nos informa que devemos digitar 1 para tal operação, digitar 2 para outra operação, e assim sucessivamente. A memória operacional é capaz de reter um número limitado de informações e está relacionada com a atenção voluntária, que sustentamos até atingir determinado objetivo. Em geral, as informações que serão aprendidas de forma consciente têm de passar pelo filtro da atenção e da memória operacional antes de serem armazenadas de modo mais permanente.

A memória operacional e a atenção voluntária são coordenadas por circuitos nervosos localizados na parte mais anterior do cérebro e estão sujeitas a modificações ao longo do desenvolvimento. A criança começa a desenvolvê-las nos primeiros meses de vida; ocorrem amadurecimento e aperfeiçoamento progressivos até a terceira década de vida, quando tem início uma involução. Portanto, os adolescentes e jovens têm, nesse aspecto, uma capacidade maior que a das crianças e a dos idosos.

No mundo atual, a memória operacional é constantemente desafiada pela grande quantidade de informações à qual somos submetidos a todo o momento e da qual tentamos dar conta ou precisamos processar de forma às vezes simultânea e inclusive concorrente. Falamos ao celular enquanto dirigimos nosso carro ou verificamos as mensagens eletrônicas no computador. Escutamos música com um fone de ouvido enquanto lemos notícias ou conversamos casualmente. Mas isso é particularmente notável entre os adolescentes, que, mesmo durante a realização de tarefas escolares, mantêm ligados não só o computador, que utilizam também para jogos eletrônicos e interação com amigos, mas ainda aparelhos de som e mesmo o televisor, tudo isso simultaneamente.

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos em 2006 verificou que, durante a rea-lização das tarefas escolares em casa, 84% dos adolescentes escutavam música, 42% viam televisão e 21% estavam fazendo três ou mais atividades ao mesmo tempo. Não há dados para a realidade brasileira, mas a observação informal aponta para uma situação similar, ao menos nas classes mais favorecidas.

O envolvimento nessa quantidade de tarefas múltiplas, com seu fluxo contínuo de informação, requisição de ações paralelas e mudança contínua do foco de atenção, produz alterações no cérebro dos indivíduos que a elas se submetem. Naturalmente, com o treino, eles passam a ter maior habilidade. Essas pessoas desenvolvem, por exemplo, uma atenção periférica mais eficiente e conseguem responder mais rapidamente aos estímulos visuais.

Contudo, há evidências de que a memória operacional, mesmo sendo um pouco modificável, não consegue exceder determinados limites, pois o cérebro, que se desenvolveu ao longo da evolução de nossa espécie em um ambiente muito diferente daquele encontrado no mundo moderno, tem dificuldade no processamento simultâneo de uma grande quantidade de informações. Além disso, ele não divide a atenção, mas faz uma alternância rápida entre os diferentes focos, o que leva a um retardo nas respostas e a uma perda na eficiência de processamento da informação.

Os jovens envolvem-se tranquilamente em tarefas múltiplas, pois a elas estão acostumados e obtêm uma sensação de aumento de eficiência. Porém, isso não é verdade e vem acompanhado de outras desvantagens: qualquer aprendizagem passa a ser superficial - e, como a memória operacional é transitória, a maior parte das informações processadas se perderá rapidamente. A aprendizagem duradoura requer a modificação permanente de sinapses, ligações entre as células nervosas localizadas em circuitos diferentes daqueles responsáveis pela memória operacional. Uma aprendizagem permanente requer elaboração e repetições, não ocorrendo de um momento para outro, pois leva tempo e esforço para se consolidar.

Outro problema de quem se acostuma a trabalhar com tarefas múltiplas em um ambiente tecnologicamente avançado é que o cérebro habitua-se a uma gratificação imediata. Qualquer demora passa a ser motivo de desagrado e impaciência. Acostumados a esse tipo de estimulação, os jovens tendem a considerar entediante o estudo e a leitura de um texto mais extenso, o mesmo acontecendo com as aulas tradicionais. Muitos não têm paciência nem para a própria televisão, que precisa ser acompanhada de outra atividade concomitante, como o uso do celular ou do computador.

Portanto, as modificações no funcionamento cerebral da era tecnológica podem trazer vantagens e desvantagens. Costumamos dar muita importância ao progresso alcançado nos últimos tempos, e os imigrantes digitais esforçam-se para manter o passo com as novidades tecnológicas, que a cada dia se tornam mais atraentes e promissoras. No entanto, se eles procuram modificar o seu cérebro para lidar com essas novas interações, é bom que os nativos digitais também sejam treinados ativamente em habilidades que antes se desenvolviam de maneira mais natural, pois eram requeridas no cotidiano de um sem-número de gerações que nos precederam. Alguns circuitos cerebrais que eram desenvolvidos naturalmente nos imigrantes digitais podem estar sendo pouco estimulados ou se desenvolvendo anormalmente nos nativos digitais.

É recomendável orientar os jovens para que adquiram hábitos de estudo em que a memória operacional e a atenção sejam focadas em atividades e conteúdos que favoreçam uma aprendizagem de longo prazo. Convém conscientizá-los de que, nos momentos de estudo, os estímulos "distraidores" devem ser reduzidos a um mínimo, e é interessante que o estudo seja feito em local e horário apropriados, de modo a se tornar uma rotina. É bom que eles aprendam a estabelecer prioridades a fim de a não se envolver em mais de uma tarefa ao mesmo tempo, ou que alternem as ocupações, caso isso seja necessário.

Um aspecto relevante a ser lembrado é que o cérebro é um dispositivo que se desenvolveu ao longo da evolução animal para permitir a sobrevivência dos indivíduos e da espécie. Logo, ele é construído para viabilizar a interação com o meio ambiente, dele extraindo as informações mais importantes. Vale dizer que o cérebro está permanentemente disposto a aprender, mas limita-se a processar aquilo que reconhece como importante. Assim, é preciso fazer com que os jovens percebam como importante o conteúdo que lhes é oferecido para aprender. Esse é o maior desafio, porque de pouco adianta a ausência de distraidores se o conteúdo principal é tido como irrelevante.

Isso também vale para o desenvolvimento de um hábito importante: o da leitura de textos mais extensos. Ele só se estabelecerá caso os jovens venham a percebê-lo como algo significante e agradável - tão ou mais agradável do que navegar na internet. Muitos imigrantes digitais sabem que isso pode ser verdadeiro; porém, para os nativos digitais, esse é um desafio considerável a ser enfrentado desde uma idade precoce.

Outro fato a ser considerado é que os jovens dedicam cada vez mais tempo ao uso intensivo e constante das tecnologias disponíveis, passando muitas horas do seu dia em interação com esses instrumentos eletrônicos. Esse fato não só diminui o tempo destinado ao estudo, como também restringe o contato social face a face e pode ocasionar uma diminuição das habilidades interpessoais. As atividades físicas e ao ar livre são igualmente reduzidas, tendo consequências como maior tendência à obesidade.

Em um levantamento feito nos Estados Unidos pela Fundação Kaiser, em 2010, registrou-se que os jovens de 8 a 18 anos ficam expostos cerca de oito horas diárias aos dispositivos eletrônicos, frequentemente múltiplos. Em geral, não existem regras para ordenar ou limitar essa exposição. O televisor costuma ficar ligado todo o tempo, inclusive nas horas das refeições, e verificou-se que a exposição mais extensa estava correlacionada a um desempenho escolar mais precário. Pode-se supor que essa é uma tendência observável também em nosso país.

Assim, torna-se essencial incentivar e recuperar o espaço das interações sociais face a face entre os jovens, cada vez mais envolvidos nas malhas da tecnologia moderna. As pesquisas têm demonstrado que a interação social ativa o funcionamento do cérebro, com efeitos benéficos no desempenho cognitivo em todas as idades. Interações simples, como a proporcionada pelas refeições em família (com o televisor desligado), têm impacto positivo no aumento do vocabulário e no desenvolvimento intelectual das crianças, além de exercer um efeito protetor para os adolescentes no que se refere a comportamentos de risco e uso de drogas.

Portanto, se há realmente diferenças entre os cérebros de imigrantes e nativos digitais, é possível e recomendável diminuir essas diferenças, atuando positivamente em ambas as populações.

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