Sentido e prazer para aprender
Bernard CharlotPoucos brasileiros conhecem tanto a rea-lidade da educação do Brasil quanto o filósofo francês Bernard Charlot, 66 anos, ainda mais se o assunto em discussão for ensino e contemporaneidade. Radicado no Brasil, o professor de Ciências da Educação da Universidade de Paris 8 e professor-visitante da Universidade Federal de Sergipe (UFS) investiga na prática como os alunos se relacionam com o saber e defende o sentido e o prazer como fatores primordiais para a formação de crianças e jovens, seja no Brasil, seja na França ou em qualquer lugar do mundo. Depois de passar quase 20 anos estudando a relação que as pessoas estabelecem com o saber - grande parte desse tempo vivido em um grupo de pesquisa que ele ajudou a fundar, chamado Educação, Socialização e Coleti-vidades Locais (Escol), na Universidade de Paris 8 -, Charlot casou-se com uma professora brasileira e veio morar no outro lado do oceano Atlântico em 2003. Tendo ocupado vários cargos como docente e pesquisador e tendo publicado diversos livros, hoje ele acompanha de perto a realidade das escolas brasileiras, principalmente as do Nordeste, para construir as suas teorias, hipóteses e convicções. Nesta entrevista, ele analisa de que modo ocorre a relação entre professores e alunos na sala de aula, questiona o conceito de "sociedade do saber" e aponta os maiores desafios para que os mestres eduquem os jovens de hoje. - Marcos Giesteira
A relação com o saber mudou fundamentalmente a partir da década de 1960. Antes, ia-se à escola para aprender, e a escola não mudava o curso da vida: quer se fosse um bom aluno ou um aluno fracassado, ia-se trabalhar na roça, na usina, numa pequena loja ou, quando se era filho da burguesia, alcançava-se a situação social esperada, fosse pela escola ou por outro meio. De lá em diante, pôde-se sonhar em mudar a vida graças à escola, embora permaneça apenas um sonho para muitos filhos das classes populares. Sendo assim, o que acontece na escola já não é uma simples questão pedagógica. Da trajetória escolar depende o nível da inserção socioprofissional e até mesmo a possibilidade de conseguir um emprego. A questão pedagógica passou a ser também uma questão social. Logo, todo mundo considera que se vai à escola para se ter um bom emprego mais tarde e, aos poucos, esquece-se da escola como um lugar de transmissão de saber. Em certas escolas, penso que ensinam apenas para poder avaliar! O momento importante não é mais a aula, é a prova! Os alunos vão à escola para passar de ano, para seguir passando de ano e, ao final do processo, prestar vestibular, cursar uma universidade, obter um diploma e, talvez, arranjar um bom emprego. De certa forma, esses jovens são realistas. Deixa-me preocupado, porém, o fato de que cada vez mais alunos vão à escola apenas para passar de ano e nunca encontraram na escola o prazer de aprender e o sentido do saber. Quando os alunos não conferem sentidos aos conteúdos escolares e só os memorizam para decorar para a prova, não se trata mais de saberes, e pode-se duvidar de que estejamos entrando na pretensa "sociedade do saber".
O senhor recusa a ideia de sociedade do saber?
Por um lado, a sociedade contemporânea, por ser mais complexa do que a de outrora e por mudar em ritmo acelerado, requer um nível básico de formação mais alto. Hoje em dia, esse nível básico é o fim do ensino médio. Por sinal, podemos considerá-lo como o gargalo brasileiro. Menos de 50% dos brasileiros entre 15 e 17 anos frequentam o ensino médio, enquanto o percentual de jovens que concluem essa etapa é cerca de 90% na Coreia do Sul, 80% nos Estados Unidos e 70% na França. Desse ponto de vista, falar de sociedade do saber faz sentido: a sociedade contemporânea precisa formar jovens mais reflexivos, autônomos, responsáveis, criativos, capazes de um trabalho coletivo. Por outro lado, o que se observa nas escolas, em especial naquelas escolas particulares que pretendem formar as elites do futuro? Concorrência de todos contra todos, memorização cega, conformismo prudente e o rei vestibular mandando em todos! Se essa é uma sociedade do saber, trata-se de um saber que está perdendo o seu valor de uso e permanece apenas com seu valor de troca. Por fim, não se deve confundir informação e saber.
Poderia explicar melhor essa relação?
Já entramos na sociedade da informação, mas o saber é outra coisa. Para construir um saber, é preciso juntar informações de modo pertinente para produzir um sentido que esclareça o mundo e a vida. Hoje, essa diferença é um divisor de águas para pensar o futuro da profissão docente. O professor de informação, aquele que acumula pequenas informações fragmentadas, palavras técnicas, já está historicamente morto: não pode enfrentar a concorrência com o Google, sempre melhor do que um professor para oferecer textos, imagens, vídeos. No entanto, nunca foi tão necessário um professor de saber, aquele que ensina como procurar e tratar informações para responder a questões e resolver problemas. Ainda existem muitos professores de informação. Eles precisam mudar porque senão, daqui a no máximo 20 anos, terão sido substituídos por monitores de equipamentos eletrônicos e audiovisuais.
Há outros pontos que devem ser destacados na relação com o saber dos jovens?
Há pelo menos uma segunda característica que deve ser destacada: a grande dependência dos alunos para com o professor. Em uma pesquisa realizada com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) de Brasília, tentamos entender o que significa "estudar" para alunos brasileiros da 4ª série (atual 5º ano). Segundo eles, estudar é fazer o que a professora disse que se tem de fazer e que não se deve "bagunçar", "brigar" e "brincar". Quando o aluno vai à escola, escuta a professora e não bagunça demais, ele considera que fez o seu trabalho. O que acontece a seguir depende da professora: se ela explicar bem, o aluno vai saber e, se ele não sabe, é porque a professora não explicou bem. Encontrei a mesma postura em pesquisas junto a alunos franceses: o ideal pedagógico do aluno é a professora cujas palavras entram diretamente na cabeça do aluno. Estamos longe do aluno reflexivo e criativo da sociedade do saber...
Isso também vale no ensino médio? Há uma diferença entre os alunos do ensino fundamental e médio no que se refere à relação com o saber?
Até onde eu saiba, não existe pesquisa sistemática para comparar os alunos dos dois níveis de escolarização, em particular no Brasil. Minha hipótese é a de que existem pelo menos nuances, devido à dupla seleção que define o ensino médio brasileiro. Em primeiro lugar, uma seleção para entrar no ensino médio. Não entram os mais fracos, os mais isolados, os mais pobres. Portanto, não se encontram nessa etapa esses alunos cuja relação com o saber é completamente defasada, que nunca entenderam qual é a lógica da escola. Também é menos forte no ensino médio a concorrência entre o que vale a pena ser aprendido na escola e "na vida", como dizem os jovens, já que essa concorrência é mais viva entre os alunos dos meios populares. Contudo, o ensino médio termina por outra seleção, através do vestibular, considerado como uma verdadeira fronteira entre dois mundos: o da vida difícil e o do sucesso. Por isso, o ensino médio é um lugar de angústia e, às vezes, de sofrimento, mas também não se deve denegrir a situação do ensino brasileiro: ainda há alunos que gostam de aprender, professores que adoram ensinar e escolas inteligentes e eficazes, inclusive escolas públicas.
Qual o maior desafio que o professor enfrenta hoje para ensinar os conteúdos escolares aos jovens?
É conseguir que o aluno aprenda, estude, envolva-se em uma atividade intelectual. Só aprende quem se mobiliza numa atividade intelectual - e esse é o ponto decisivo. Falo de mobilização, não de motivação, que é uma palavra de que não gosto. Quando o professor tenta "motivar os alunos", muitas vezes se trata de encontrar uma maneira para que eles façam algo que não estão com vontade de fazer. Meu problema é outro: despertar no aluno um desejo de aprender. O que os alunos chamam de aula "interessante" é aquela em que conteúdos intelectuais produzem, de forma um tanto misteriosa, um sentimento de bem-estar, ou seja, satisfazem desejos profundos do sujeito. Sempre foi assim, porém o aluno contemporâneo é mais exigente. De fato, vivemos em uma sociedade que valoriza e legitima o desejo, que considera que o ser humano tem "o direito à felicidade". Uma sociedade que visa ao desenvolvimento econômico precisa do consumo e, portanto, não pretende domar as paixões, como queria a educação tradicional, mas satisfazer os desejos.
Como fazer isso concretamente?
A equação pedagógica é simples de se formular: aprender = atividade + sentido + prazer. Resolvê-la é mais difícil. Devemos voltar a uma lógica do prazer de aprender. Hoje, quando o aluno não estuda, o que lhe diz o professor? Se ele continuar assim, não vai passar de ano! O que confirma que a escola é um lugar onde se devem estudar coisas chatas para poder passar de ano... Devemos parar de mentir aos alunos fingindo que ensinamos coisas úteis. Às vezes, isso é verdade e, ao fazê-lo, damos força pedagógica ao que ensinamos, já que faz sentido aprender o que é útil. Mas não podemos trancar o ensino em uma pedagogia do útil, porque a nossa vida é constituída por muitas coisas inúteis, mas gostosas: escutar música, dançar, namorar, jogar futebol, etc. E também porque a maior parte do que ensinamos, em especial no ensino médio, não serve para nada a 99% dos alunos.
Poderia dar algum exemplo?
Quem, fora da escola, já teve de resolver uma equação do segundo grau ou distinguir um adjunto adnominal de um complemento nominal? Ensinamos esses conteúdos não por eles serem úteis, mas por serem importantes. Por que são importantes? Essa é a questão-chave para construir o currículo, formar os professores e ensinar. Por que é importante ensinar isso aos jovens? Considero que há duas pistas para essa questão ser respondida. Em primeiro lugar, é importante o que permite melhor entender o mundo, a vida, as minhas relações com os outros e comigo mesmo. Como escreveu Bachelard, o conhecimento é sempre resposta a uma questão. O professor não deve apenas levar respostas aos alunos; deve também fazer um importantíssimo trabalho de questionamento do mundo. Em segundo lugar, um dos maiores prazeres de nossa vida é nos sentirmos inteligentes e, então, devemos colocar os alunos frente a desafios intelectuais, levá-los para aventuras no mundo das ideias e das artes, no que se chama hoje de pedagogia do empoderamento, que deve substituir a atual pedagogia da ameaça e da humilhação.
E o vestibular? Aposto que tal pedagogia poderia ser mais eficaz para encarar o vestibular, sobretudo se este se tornasse inteligente.
O senhor não falou da internet. Não considera importante a questão do mundo digital?
Sim, considero importante, contanto que não se confunda informação e saber. Hoje em dia, a escola não é mais a única nem sequer a principal fonte de informação. Além disso, os jovens leem cada vez menos textos impressos, enquanto esse tipo de texto continua sendo a base da formação escolar. Por fim, tem-se desenvolvido uma forma de comunicação que chamo de "comunicação pingue-pongue": envio uma mensagem, recebo de imediato uma resposta; o que, é claro, torna ainda mais insuportável a situação em que o professor fala, fala, fala, enquanto o aluno apenas escreve, escreve, escreve. Temos de inventar uma escola que mobilize a informação digital para construir e ensinar saberes; porém, para isso, vamos ter de mudar a forma escolar inventada no século XVI e parar de exigir dos professores coisas contraditórias.
Quais são as dificuldades mais urgentes que o professor de ensino médio deve enfrentar?
De modo geral, uma das dificuldades fundamentais que o professor do ensino médio deve enfrentar é o fato de que queremos dele coisas contraditórias: que nossos filhos estejam felizes na escola, que passem a ser cada vez mais inteligentes e, é evidente, que sejam aprovados no vestibular. Não é fácil ser professor do ensino médio hoje e será cada vez mais difícil, à medida que esse ensino se abrirá a novas camadas sociais, mas continua sendo um trabalho importante, interessante e até mesmo excitante. Muitos professores reclamam, mas, na verdade, adoram ser professores.

Comentários
Postar um comentário