Para atender os nativos digitais
Ramon M. CosenzaNascidas em uma época na qual as tecnologias digitais fazem parte do cotidiano, as crianças que hoje frequentam as escolas de educação infantil são muito diferentes daquelas de gerações anteriores e desafiam os educadores a interagir com elas. Para ajudar a compreender essa geração, conversamos com o pesquisador Ramon M. Cosenza, médico e doutor em Ciências pela Universidade Federal de Minas Gerais, que atua na área de neurociências, com ênfase em neuroanatomia e neuropsicologia. Coautor do livro Neurociência e educação: como o cérebro aprende (Artmed, 2011), Cosenza explica de que modo o cérebro vem se adaptando às novidades e quais devem ser os limites de utilização das tecnologias. "Os brinquedos tradicionais não só continuam a ser importantes, como também devem ser incentivados", afirma. Leia a seguir os principais trechos da entrevista, concedida por e-mail.
Quais são as principais diferenças entre o cérebro dos nativos digitais e o dos imigrantes digitais?É difícil dizer quais as principais diferenças ocorridas nos últimos anos com o advento das tecnologias digitais, mas podemos observar, por exemplo, que é necessário um melhor processamento das informações e da atenção visuais para interagir com os equipamentos eletrônicos, como a televisão e o computador. A coordenação visuomotora também se alterou, pois os jovens manipulam tais aparelhos desde cedo e tornam-se muito hábeis no uso de teclados de computadores e celulares ou joysticks de videogames. A memória operacional, que mantém as informações na consciência enquanto realizamos uma tarefa, parece ter igualmente melhorado, visto que os jovens envolvem-se em tarefas múltiplas com mais facilidade. Portanto, é razoável afirmar que os circuitos cerebrais que lidam com essas habilidades foram modificados e tornaram-se mais eficientes entre os nativos digitais.
Como isso se reflete na maneira de aprender e ensinar?
Os jovens de hoje, acostumados a um mundo repleto de imagens que se modifica constantemente, sentem-se confortáveis quando interagem com conteúdos apresentados dessa forma, enquanto o texto impresso já não tem o mesmo encanto para eles. Contudo, o nosso sistema nervoso continua a funcionar como sempre funcionou, razão pela qual não se modifica essencialmente a maneira de aprender ou ensinar. A aprendizagem ocorre quando se alteram as conexões entre as células nervosas, permitindo uma comunicação mais eficiente em determinados circuitos neuronais. São múltiplas as formas de estimular e promover essas alterações, assim como diferentes são os circuitos envolvidos em cada aprendizagem, mas ela ocorre sempre que formamos e estabilizamos novas sinapses, que são os pontos de contato entre as células nervosas ou neurônios.
As crianças e os jovens de hoje são mais inquietos e necessitam de estímulos diferentes. Como o senhor avalia esse comportamento?
De fato, não só os jovens, mas todos nós, hoje em dia, somos envolvidos e solicitados por um conjunto de artefatos com os quais tendemos a interagir ao mesmo tempo. Os jovens costumam ter mais facilidade com isso, já que o seu cérebro está treinado a essas habilidades desde tenra idade. Como estão no ápice da sua capacidade, têm a impressão de que podem fazer muitas atividades ao mesmo tempo e de forma competente. Na verdade, muitas informações são perdidas ou processadas de maneira superficial, prejudicando a aprendizagem ou a memorização mais duradoura. Por outro lado, como eles se acostumam a mudar com frequência o foco da atenção e a obter novos estímulos rapidamente, tendem a se entediar com textos longos ou exposições como aquelas que são vistas em salas de aula.
A escola terá de se adaptar a essa nova realidade?
A escola, sem dúvida, terá de encarar essa nova realidade e levar em conta esses hábitos e preferências dos alunos em suas estratégias pedagógicas. Apesar disso, é cada vez mais importante informar e orientar os aprendizes para que adquiram hábitos saudáveis de estudo, limitando as fontes de estimulação e mantendo o foco de atenção nos objetivos e conteúdos a serem assimilados. Devem aprender a importância de fazer cada coisa a seu tempo e a estabelecer prioridades. Para que sejam hábeis em outro tipo de processamento, é recomendável estimular o quanto antes o gosto pela leitura, sendo para isso fundamental a contribuição dos pais. Outro aspecto dessa questão é que a escola precisa estar preparada para ensinar seus alunos a selecionar os conteúdos disponíveis no espaço digital, identificando o que é verídico ou essencial e descartando o supérfluo ou incongruente. Eles devem ser capazes de planejar suas ações, de examinar abordagens alternativas e daí tirar conclusões, sem esquecer os aspectos éticos envolvidos. Devem realmente "aprender a aprender" utilizando esses novos recursos. Isso faz parte do que a neuropsicologia chama de funções executivas, as quais precisam ser desenvolvidas e incentivadas no aprendiz.
Deve-se limitar o uso das ferramentas tecnológicas, como computador, internet e jogos eletrônicos?
Como já disse antes, os jovens, que estão imersos no grande aparato tecnológico desde cedo, estão familiarizados e sentem-se à vontade para obter a informação por meio desses aparelhos eletrônicos, que são, além disso, uma fonte inesgotável de conhecimento. Portanto, seria insensato tentar ignorá-los. Ao contrário, podem e devem ser utilizados, mesmo porque sabemos que os ambientes mais ricos, com maior capacidade de estimulação, levam a cérebros com maior abundância de conexões e com maior capacidade de processamento das informações. Também devemos levar em conta que o nosso cérebro é um dispositivo biológico que foi desenvolvido, ao longo da evolução animal, para interagir com o ambiente de modo a permitir a preservação do indivíduo e a continuidade da espécie. Portanto, nosso cérebro está sempre disposto a apreender do ambiente os estímulos que ele julga significativos, pois isso pode ser importante para a sobrevivência, mas seleciona somente aquilo que lhe parece significativo ou agradável.
Como a escola pode usar essa informação para potencializar as aprendizagens?
Se quisermos ensinar novos conteúdos, habilidades ou informações, teremos de ajudar o cérebro a reconhecer que eles são importantes ou agradáveis e que se inserem no contexto do que já é conhecido. Então, faz sentido utilizar os instrumentos que integram o universo em que os jovens estão inseridos. Por outro lado, existe o risco de uma dependência desse universo eletrônico. Dados dos Estados Unidos revelam que os jovens chegam a ficar quase 10 horas por dia interagindo com esses aparelhos. É evidente que isso rouba tempo dos estudos, do convívio social face a face, da interação com a natureza e promove uma tendência à obesidade. Portanto, é bom que se imponham limites à utilização da parafernália digital.
Como e a partir de que idade isso deve ser feito?
A partir dos 2 anos, recomenda-se o uso limitado e supervisionado de televisores, videogames, DVDs, computadores e outros aparelhos eletrônicos. Eles podem ser de utilidade para auxiliar no desenvolvimento das crianças, especialmente se os pais discutem e comentam com os filhos o conteúdo a que são expostos nesses artefatos. Recomenda-se, inclusive, que as escolas passem a incluir tópicos de educação para a mídia em seus programas. No entanto, atividades alternativas, como a interação social, o exercício físico e as atividades ao ar livre, sempre devem ser incentivados.
Quais são os benefícios que o mundo digital oferece às crianças pequenas, tomando como referência as recentes descobertas das neurociências com relação à plasticidade cerebral?
Hoje sabemos que nosso sistema nervoso é extremamente plástico e altera as conexões entre as suas células à medida que recebe estímulos do exterior ou do interior do organismo. Essa plasticidade perdura por toda a vida, mas é particularmente notável nos primeiro anos. As pesquisas nessa área têm mostrado que um ambiente enriquecido promove o desenvolvimento adequado de nossos cérebros, enquanto o isolamento leva a problemas em diversas áreas do seu funcionamento. Contudo, existe um nível satisfatório de estimulação, e mais do que isso não é necessariamente, melhor.
As tecnologias digitais estariam superestimulando as crianças?
As crianças pequenas estão em uma fase do seu desenvolvimento na qual o mais importante são as estimulações sociais, proporcionadas sobretudo pelos pais e por outros cuidadores. A Academia Americana de Pediatria sugere que, até os 2 anos, evite-se que as crianças assistam à televisão e, a partir dessa idade, que a exposição não seja maior do que duas horas diárias. Ela recomenda que os televisores sejam removidos dos quartos de dormir e que os pais promovam outras atividades que estimulem o desenvolvimento cerebral, como conversar, brincar, cantar e ler juntos. Para elaborar suas recomendações, essa instituição baseou-se em pesquisas que sugerem que a exposição excessiva a televisores e videogames pode ocasionar problemas com a atenção e o sono, além de levar a um atraso no desenvolvimento da linguagem.
Em sua opinião, os brinquedos tradicionais podem ser substituídos pelos tecnológicos ou continuarão tendo um papel importante na formação humana?
Os brinquedos têm um papel fundamental no desenvolvimento físico e mental das crianças. Aliás, sempre é bom lembrar que o corpo e a mente não devem ser dissociados. A interação com os aparelhos digitais é muito eficiente em termos de estimulação do sistema nervoso e pode ajudar no desenvolvimento de várias capacidades e funções, mas tende a levar a certa imobilidade, que sem dúvida é prejudicial. Os brinquedos tradicionais não só continuam a ser importantes, como também devem ser incentivados, exatamente porque há uma tendência a exagerar na quantidade de tempo que os jovens passam interagindo com aparelhos eletrônicos.
O que a neurociência nos diz sobre a importância da interação social?
A neurociência moderna veio mostrar que existe em nosso cérebro um conjunto de estruturas e circuitos voltados ao controle da interação social. Como somos uma espécie essencialmente social, esse fato não deve causar espanto. Ocorre que tais estruturas e circuitos só se desenvolvem na criança à medida que ela vai interagindo com outras pessoas ao longo do seu desenvolvimento. Começa ainda no bebê, com o reconhecimento da face humana, e vai progredindo, com a identificação da linguagem facial e corporal, com a descoberta do outro e de que esse outro tem intenções e pensamentos semelhantes ao nosso, etc. Além disso, vão sendo aprendidas as emoções sociais (embaraço, ciúme, culpa) e as habilidades para lidar adequadamente com elas no convívio social, um desenvolvimento que só se completa no final da adolescência. Todas essas capacidades, no entanto, só podem ser aprendidas no convívio com outras pessoas, e a ausência do seu desenvolvimento pode gerar dificuldades, como incapacidade de empatia, tendência à violência e comportamento antissocial.
O mundo atual está proporcionando esse desenvolvimento?
No mundo moderno, é comum que pais e mães trabalhem fora, restringindo o tempo de convívio com os filhos. Além disso, os espaços públicos costumam ser perigosos e inadequados para a convivência com outras crianças. Nossos jovens são empurrados a interagir com instrumentos eletrônicos durante um tempo muito além do desejável e em detrimento das interações presenciais, que são indispensáveis para um desenvolvimento saudável. Ao longo das gerações, nós nos acostumamos a pensar que as habilidades sociais desenvolvem-se "naturalmente", porque o ambiente natural propiciava o seu desenvolvimento, já que esse ambiente era muito semelhante àquele de que o cérebro das crianças sempre dispunha ao longo de toda a evolução de nossa espécie durante milhares de anos. No mundo de hoje, o ambiente modificou-se a tal ponto que precisamos prestar atenção a esses aspectos, providenciando para que as crianças tenham os estímulos adequados para desenvolver o seu "cérebro social".

Comentários
Postar um comentário